Minha filha nasceu em um parto natural. Parir não doeu. Foi intenso. Foi forte. Mas eu não consigo chamar de dor o que eu senti. Me arrastou em um fluxo avassalador de eventos, sentimentos, pensamentos, energias... tão forte que em dado momento simplesmente perdi o controle... e precisei dormir, e acordar, e andar, e dançar, e tremer, e vomitar, e vocalizar, e apertar a mão da doula bem forte e olhar pro meu marido... e rezar, e gritar, e pedir para fazerem silêncio... mas não doeu. Quem via de fora até podia pensar que estava doendo, mas eu simplesmente não consigo chamar de dor o que eu senti. Me senti amparada, cuidada, respeitada, amada no momento do nascimento da minha filha. Pude me movimentar, pude escolher se queria me alimentar, escolher a posição em que me sentia mais confortável, mesmo que tenha sido a inusitada posição de lado... Todos ali acreditavam na natureza, na mulher e em mim e todos estavam prontos para me ajudar se eu precisasse... mas caso não, que foi o que aconteceu, estavam todos felizes simplesmente por celebrar a vida, sem pressa. Pude viver com respeito esse momento tão intenso de amor. E por viver esse momento, sentia vida no nascimento. Me senti forte, tão forte quanto o que atravessei para ter minha filha nos braços.

Um ano e meio antes nascia meu filho, em uma cesárea. Doeu. Doeu e eu por muito tempo não soube explicar porque doía. A anestesia não dá conta de algumas dores. Doeu porque eu me sentia assustada. Doeu porque eu sentia medo de morrer. Doeu porque durante nove meses expliquei como gostaria de receber meu filho e com 40 semanas de gestação tudo, que estava sempre muito bem, pareceu ficar muito perigoso. E eu que sempre andei de mãos dadas com a coragem, me senti apavorada. Doeu porque eu não senti que meu filho estava pronto. Doeu porque todos ali pareciam com pressa. Doeu porque eu não me senti amparada pela equipe. Doeu porque trocaram meu nome durante todo o procedimento. Me senti um bichinho assustado recebendo nos braços outro bichinho assustado, arrancado a força. Doeu, mas eu soube o que fazer com a dor, Gael me ensinou. E o nascimento dele fez nascer em mim a mulher capaz de parir Malu. Que pôde parir “Um bebê grande demais que só nasce de parto natural no Animal Planet” - A gente escuta tanto absurdo quando está grávida... Que pôde parir no seu tempo e do seu bebê, mesmo que passada a data prevista do parto. Que pode constatar na prática o que seu coração já sabia... todos os motivos dados para a cesárea eram falsos.

Gael nasceu de cesárea por ser "um bebê muito grande" – nasceu com 4.220kg, com 40 semanas e 3 dias. Malu nasceu de parto natural, com 4.310kg e 40 semanas e 4 dias - Um parto muito tranquilo segundo as parteiras (uma delas obstetra e a outra enfermeira obstétrica, ambas parteiras com muita experiência!) que me acompanharam.

Mas dor mesmo eu senti ouvindo uma mulher contar do nascimento dos seus filhos. A gente conversava sobre nossos partos e ela depois de me ouvir falou um pouco da sua experiência de ter dois filhos de parto “normal” e o quanto queria ter um terceiro filho, quem sabe uma menina, mas o quanto se arrepiava só de pensar no momento do parto. Ela me ouviu impressionada, como eu podia ter gostado tanto de parir? Como eu podia achar que não doía? Ela então relata um cenário de muita violência obstetrícia, de total desrespeito. Onde mandam a mulher calar a boca porque não gritou na hora de fazer. Onde empurram a barriga da mãe querendo “fazer o bebê descer”, que ainda questionam a presença do pai ou de quem a mãe escolher para estar com ela nesse momento, onde não se fala de doula. Onde não esperam o tempo da mulher. Onde te dão pressa e remédios para parir mais rápido. Remédios que causam dor. Um cenário onde fazem exames de toque recorrentes. Que não respeitam a intimidade da mulher e estudantes observam e repetem exames de forma invasiva, violenta e desnecessária. Que cortam a mulher sem avisar e sem o seu consentimento para "aumentar a passagem". Doeu muito ouvir uma mulher dizer que ficou com raiva do seu marido e durante algum tempo do seu filho, do seu bebê, por tê-la feito passar por aquilo. E ouvir ela contar o quanto foi difícil cuidar e amamentar o seu filho depois de tanta dor, doeu, doeu muito. Essa é a maior dor que consigo pensar quando falam em dor do parto... Violência Obstétrica: essa é uma dor que eu sei que nenhuma mulher precisava ou devia sentir.

Emília Nuñez

Autora de livros infantis, idealizadora do projeto Mãe que Lê e mãe de duas crianças leitoras, Emília dá dicas livros infantis, maternidade e educação no blog, Instagram e YouTube.

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Doeu?
Maternidade
September 25, 2015

Minha filha nasceu em um parto natural. Parir não doeu. Foi intenso. Foi forte. Mas eu não consigo chamar de dor o que eu senti. Me arrastou em um fluxo avassalador de eventos, sentimentos, pensamentos, energias... tão forte que em dado momento simplesmente perdi o controle... e precisei dormir, e acordar, e andar, e dançar, e tremer, e vomitar, e vocalizar, e apertar a mão da doula bem forte e olhar pro meu marido... e rezar, e gritar, e pedir para fazerem silêncio... mas não doeu. Quem via de fora até podia pensar que estava doendo, mas eu simplesmente não consigo chamar de dor o que eu senti. Me senti amparada, cuidada, respeitada, amada no momento do nascimento da minha filha. Pude me movimentar, pude escolher se queria me alimentar, escolher a posição em que me sentia mais confortável, mesmo que tenha sido a inusitada posição de lado... Todos ali acreditavam na natureza, na mulher e em mim e todos estavam prontos para me ajudar se eu precisasse... mas caso não, que foi o que aconteceu, estavam todos felizes simplesmente por celebrar a vida, sem pressa. Pude viver com respeito esse momento tão intenso de amor. E por viver esse momento, sentia vida no nascimento. Me senti forte, tão forte quanto o que atravessei para ter minha filha nos braços.

Um ano e meio antes nascia meu filho, em uma cesárea. Doeu. Doeu e eu por muito tempo não soube explicar porque doía. A anestesia não dá conta de algumas dores. Doeu porque eu me sentia assustada. Doeu porque eu sentia medo de morrer. Doeu porque durante nove meses expliquei como gostaria de receber meu filho e com 40 semanas de gestação tudo, que estava sempre muito bem, pareceu ficar muito perigoso. E eu que sempre andei de mãos dadas com a coragem, me senti apavorada. Doeu porque eu não senti que meu filho estava pronto. Doeu porque todos ali pareciam com pressa. Doeu porque eu não me senti amparada pela equipe. Doeu porque trocaram meu nome durante todo o procedimento. Me senti um bichinho assustado recebendo nos braços outro bichinho assustado, arrancado a força. Doeu, mas eu soube o que fazer com a dor, Gael me ensinou. E o nascimento dele fez nascer em mim a mulher capaz de parir Malu. Que pôde parir “Um bebê grande demais que só nasce de parto natural no Animal Planet” - A gente escuta tanto absurdo quando está grávida... Que pôde parir no seu tempo e do seu bebê, mesmo que passada a data prevista do parto. Que pode constatar na prática o que seu coração já sabia... todos os motivos dados para a cesárea eram falsos.

Gael nasceu de cesárea por ser "um bebê muito grande" – nasceu com 4.220kg, com 40 semanas e 3 dias. Malu nasceu de parto natural, com 4.310kg e 40 semanas e 4 dias - Um parto muito tranquilo segundo as parteiras (uma delas obstetra e a outra enfermeira obstétrica, ambas parteiras com muita experiência!) que me acompanharam.

Mas dor mesmo eu senti ouvindo uma mulher contar do nascimento dos seus filhos. A gente conversava sobre nossos partos e ela depois de me ouvir falou um pouco da sua experiência de ter dois filhos de parto “normal” e o quanto queria ter um terceiro filho, quem sabe uma menina, mas o quanto se arrepiava só de pensar no momento do parto. Ela me ouviu impressionada, como eu podia ter gostado tanto de parir? Como eu podia achar que não doía? Ela então relata um cenário de muita violência obstetrícia, de total desrespeito. Onde mandam a mulher calar a boca porque não gritou na hora de fazer. Onde empurram a barriga da mãe querendo “fazer o bebê descer”, que ainda questionam a presença do pai ou de quem a mãe escolher para estar com ela nesse momento, onde não se fala de doula. Onde não esperam o tempo da mulher. Onde te dão pressa e remédios para parir mais rápido. Remédios que causam dor. Um cenário onde fazem exames de toque recorrentes. Que não respeitam a intimidade da mulher e estudantes observam e repetem exames de forma invasiva, violenta e desnecessária. Que cortam a mulher sem avisar e sem o seu consentimento para "aumentar a passagem". Doeu muito ouvir uma mulher dizer que ficou com raiva do seu marido e durante algum tempo do seu filho, do seu bebê, por tê-la feito passar por aquilo. E ouvir ela contar o quanto foi difícil cuidar e amamentar o seu filho depois de tanta dor, doeu, doeu muito. Essa é a maior dor que consigo pensar quando falam em dor do parto... Violência Obstétrica: essa é uma dor que eu sei que nenhuma mulher precisava ou devia sentir.

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